Chapeuzinho Vermelho
Aprendendo a Linguagem HTML
- Era uma vez uma jovem chamada Chapeuzinho Vermelho que vivia a beira de uma grande floresta com árvores e plantas exóticas num belo exemplo de integração entre utilização natural dos recursos e urbanização.
Chapeuzinho Vermelho vivia com sua genitora, a qual ela tinha o hábito de chamar como "mãe".
- No entanto, a utilização deste termo não implicava que ela trataria com menos respeito outras pessoas com as quais ela não tivesse uma grande ligação biológica.
- Da mesma forma ela não pretendia denegrir ou menosprezar os valores tradicionais das estruturas familiares.
- De qualquer forma, Chapeuzinho insiste em registrar que lamenta se alguma destas impressões pejorativas possam ser deduzidas desta estória.
- Um dia, a Mãe de Chapeuzinho Vermelho pediu que ela transportasse uma cesta de frutas sem tratamento químico e água mineral para a casa de sua avó.
- - Mas, mãe, tal iniciativa não seria roubar o trabalho de pessoas sindicalizadas que lutaram anos a fio pelo direito de exercer sua atividade profissional na qualidade de transportadores ?
- A Mãe de Chapeuzinho garantiu-a que todas as formalidades já haviam sido providenciadas junto ao sindicato de transportadores e o formulário autorizando esta missão autônoma já estava devidamente carimbado.
- - Mas, mãe, você não está me oprimindo com esta ordem ?
- A Mãe explicou-lhe que é impossível que uma mulher oprima outra mulher, posto que todas as mulheres são igualmente oprimidas por uma sociedade machista.
- - Mas, mãe, não deveria ser o meu irmão, na sua condição de opressor, que deveria se encarregar desta tarefa no intuito de aprender a condição de oprimido ?
- A Mãe lembrou-lhe que seu irmão estava participando de uma passeata pelos direitos dos animais, além disto a tarefa em questão não poderia ser considerada uma típica tarefa feminina, mas sim uma atitude que visa o sentimento de comunhão e companheirismo entre mulheres.
- - Mas, mãe, não estaríamos então oprimindo Vovó através da mensagem subliminar que ela está velha demais para garantir sua própria subsistência ?
- A Mãe lhe assegurou que Vovó não estava doente nem incapacitada nos planos físico e mental, ainda que nenhuma desta condições implique que alguém possa ser considerado inferior a pessoas ditas saudáveis.
- Convencida e segura de seus atos, Chapeuzinho Vermelho partiu pela floresta.
- Várias pessoas consideram a floresta como um lugar perigoso, mas Chapeuzinho sabia que este tipo de medo irracional está baseado em paradigmas culturais impostos por uma sociedade patriarcal que encara a natureza como um conjunto de recursos a serem explorados, e por esta razão acredita que predadores naturais são adversários.
- Outras pessoas evitavam a floresta por medo de ladrões e marginais, mas Chapeuzinho acreditava que numa sociedade justa e não hierárquica todas as pessoas poderiam exercer seu direito de viver segundo suas próprias regras sem serem taxadas como "marginais".
- No caminho, Chapeuzinho passou por um lenhador e observou algumas flores, porém momentos após ela se viu frente a um lobo.
- O lobo perguntou-lhe o que ela carregava na cesta.
- Chapeuzinho Vermelho, lembrando-se que sua professora havia recomendado a prudência quando estranhos tentassem falar com ela, hesitou.
- No entanto, segura de si e consciente de sua sexualidade, decidiu responder ao lobo.
- - Eu estou levando mantimentos saudáveis para a minha Avó num gesto de solidariedade.
- O lobo então comentou que não era seguro para uma menina passear pela floresta sozinha.
- - Eu me sinto completamente ofendida pelo seu comentário sexista, apesar disto eu decidi ignorá-lo por causa do seu status social de excluído. A pressão da sociedade é a verdadeira responsável pelo desenvolvimento deste seu ponto de vista alternativo. Agora, com licença, pois vou retomar o meu caminho.
- O lobo, provavelmente devido a sua condição de excluído, pode adotar um pensamento não - linear fora dos padrões ocidentais e da moral judaico-cristã que o levou a utilizar um caminho alternativo para chegar antes de Chapeuzinho a casa da Vovó.
- Lá chegando, devorou (lato sensu) a Vovó numa ação afirmativa de sua condição de predador desprovido de escrúpulos.
- Então movido por noções rígidas e tradicionais de comportamento o lobo vestiu a camisola da Vovó e deitou-se na cama cobrindo moralisticamente todas suas partes que poderiam denunciá-lo (anatômicamente falando).
- Chegando a casa da Vovó, Chapeuzinho sentenciou:
- - Vovó, eu lhe trouxe um lanche gratuito para saudá-la em sua condição de sábia e madura matriarca !
- O lobo respondeu suavemente:
- - Venha cá, minha netinha para que eu possa te ver ...
- - Nossa! Vovó, que olhos grandes que você tem !
- - Você esquece que eu tenho certas deficiências visuais totalmente compatíveis com minha idade, apesar disto não afetar em nada minha capacidade ou qualificação como ser humano produtivo e válido para a sociedade.
- - E Vovó, que nariz enorme você tem ...
- - Naturalmente, eu poderia ter mudado isto, mas resolvi não ceder às pressões sociais da estética e do consumismo.
- - E Vovó, que dentes afiados você tem ...
- Nisto o lobo, não agüentando mais o proselitismo da discussão e numa típica reação de seu meio social, saltou da cama pegando Chapeuzinho e abriu sua bocona ...
- Chapeuzinho, porém retorquiu:
- - u creio que você está esquecendo de me pedir a permissão para aumentar o nosso nível de intimidade.
- O lobo surpreso ficou sem ação e neste momento o lenhador entra pela porta agitando seu machado:
- - Não se mexa !
- - O que você pensa que está fazendo ? Perguntou Chapeuzinho. - Se eu lhe deixo me ajudar agora, eu estarei expressando uma falta de confiança em mim mesma e em minhas capacidades, o que causaria uma tremenda falta de auto-estima que poderia se refletir inclusive no meu desempenho escolar.
- Porém o lenhador não se intimida e responde:
- - "Última chance baby, afaste-se desta espécie protegida, eu sou um agente credenciado do IBAMA.
- Como Chapeuzinho não considerou fundamentada a imposição imperialista e policial, o lenhador num movimento seco deu uma machadada certeira na contraventora.
- - Ainda bem que você chegou a tempo ! Disse o lobo aliviado. - Esta jovem e sua Avó haviam me capturado nesta ideologia de violência.
- - Não. Diz o lenhador. -A verdadeira vítima aqui sou eu, que tive que lidar com minha raiva profunda e encarar de frente todos os meus fantasmas. E ainda vou ter que lidar com o imenso trauma de ter tido contato com uma parte violenta da minha essência para a qual minha formação pessoal não estava preparada a afrontar.
- -Eu sinto sua dor." Condescendeu o lobo.
- Os dois se abraçam fraternalmente.
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