Carta de uma Mãe Portuguesa a seu Filho
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- Querido Filho,
- Te escrevo estas linhas para que saibas que estou viva. Te escrevo devagar porque sei que tu não consegues ler rápido.
- Bom, não vais mais reconhecer a casa quando vieres, porque a gente mudou.
- Finalmente enterramos teu avô. Encontramos o cadáver com esse negócio da mudança; estava no armário desde aquele dia em que ganhou da gente brincando de esconde-esconde.
- Hoje tua irmã Júlia teve um filho, mas como ainda não sei se é menino ou menina, não posso dizer se você é tio ou tia.
- Quem não tem aparecido por aqui é o tio Venâncio, que morreu totalmente no ano passado. E teu primo jacinto, que sempre acreditou ser mais rápido que um touro, comprovou que não era.
- Estou preocupada com o cachorro Boby, que insiste em perseguir os carros parados e está ficando cada vez mais chato.
- Ah! Finalmente os engarrafadores de refresco tiveram a grande idéia de pôr um letreiro na tampinha que diz: "Abra por aqui".
- Que achas? Teu irmão José fechou o carro com a trava e deixou as chaves dentro; teve que ir lá em casa para pegar a chave duplicata e poder tirar todos nós de dentro do carro.
- Esta carta te mando com Manolo, que vai amanhã para aí. A propósito, será que podes pegá-lo no aeroporto?
- Bom meu filho, não escrevo o endereço porque não o sei. É que a última família portuguesa que vivia aqui nesta casa levou os números para não terem que mudar de endereço.
- Se encontrares a dona Maria dá um alô da minha parte; caso não a encontres, não precisas dizer nada.
- Tua mãe que te ama:
- EU
- P.S. Ia te mandar cem escudos, mas já fechei o envelope.
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